REBORN.

“Sou composta por urgências: minhas alegrias são intensas; minhas tristezas, absolutas. Me entupo de ausências, me esvazio de excessos. Eu não caibo no estreito, eu só vivo nos extremos.” (C. Lispector)

bird heart

 

O mundo gira 365 dias em sua órbita. Os dias têm 24 horas. Os segundos passam a cada instante, então por que é tão difícil aceitar que nada mais será como foi? Por que é tão difícil ver a mudança acontecer em todos os lugares, inclusive aqui dentro, na alma?

As mudanças, as quebras e o novo, são provavelmente o que mais me apavora na vida. É diante do nada que sempre me pego sem saber o que fazer. E lidar comigo nos momentos de crise têm sido cada vez mais difícil para os próximos, porém cada vez mais esclarecedor para mim. Eu estou deixando minha emoções chegarem à flor da pele e me dominarem pelo tempo que elas precisarem para me mostrar o que há para entender.

Eu sofro ao ver que coisas que nunca imaginei estão acontecendo e deixando bem claro que o mundo gira, e as horas passam. É necessário ter uma significativa sensibilidade para lidar com certas situações e momentos daqueles que queremos bem. Mas isso precisa ser recíproco, pois “fazer bem sem olhar à quem” funciona se realmente conseguirmos ver a vida com todos os seus lados.

Não queria me decepcionar, mas nesse giro da Terra que não podemos coibir, coisas acontecem e almas se desprendem. E as vezes o que muda é apenas o olhar. Viver e crescer não é apenas uma condição, é uma viagem. As experiências do dia a dia modificam a visão sobre o próximo. E eu não posso me envergonhar de ter mudado, não posso pedir desculpas por agora ser diferente. Eu preciso me conhecer e aceitar essa nova pessoa em mim.

Hoje, eu não me calo em frente à algo que não acredito, não reprimo nenhuma emoção e em hipótese nenhuma finjo estar bem se não estou. E é dessa maneira que percebo quem está sempre ao meu lado. É assim que vejo quem realmente merece todo o meu carinho.

Hoje, eu não me calo mais diante das preconcepções fomentadas por livros de auto ajuda sobre relacionamentos. Pois não existe uma fórmula, existe honestidade, respeito, confiança e amor. De resto, cada um deve perceber como seu coração funciona e apenas acreditar que ele vai te levar ao lugar certo. Conselhos superficiais vêm de corações frustrados ou rasos. Logo, é melhor o silêncio.

Hoje, eu não me calo sobre o que está acontecendo aqui dentro, eu não finjo que estou bem porquê não estou. Mas eu preciso acompanhar o tempo, então todos os dias eu levanto mesmo com a dor, e procuro em mim forças para resolver o que está ao meu alcance.

Aos poucos eu consigo observar todas as mudanças. E como o mundo cruza e descruza caminhos de acordo com o tempo que lhe convém.

 

Eu morri.

não sou mais

Dizem que todos morremos aos 27 anos. Que as dores de existir batem tão profundamente que alguns não aguentam e partem. Outros, precisam se reencontrar.

Aos 27 eu estava muito ocupada realizando uns dos maiores sonhos da minha vida e não consegui dar atenção ao que estava acontecendo. Mas quase no final, a morte me atingiu e mostrou que eu não estava imune ao ciclo.

Eu morri.

Ali, em meio as árvores que tanto sonhei, estava eu. Deitada e imóvel à dor de viver, de ser e de sentir. Com muito carinho e amor de alguns que me querem bem, eu levantei para continuar o que precisava. Mas eu nunca mais fui a mesma.

A dor de estar perdida, machucada e profundamente magoada não passou e agora preciso descobrir como renascer.

“Cai 7 vezes e levantei 8.”

Porém, levantar está difícil. Eu não sei mais quem sou ou para onde devo caminhar.

Procurei tudo que já me vez bem, tudo que já me puxou para a luz. Mas nada parece funcionar. Então espero.

Espero que a dor se vá, que a resposta apareça e eu descubra debaixo de toda essa tristeza, quem agora sou.

Cansada.

nothing

Estou exausta da vida.

Após um ano longe de casa eu posso confirmar que sou uma pessoa completamente diferente. Não por clichês de maturidade, independência e experiência, mas porque algo no universo aconteceu e eu mudei. Não reconheço mais aquela Ana que chegou no Canadá há um ano atrás. Temos muito em comum e compartilhamos vários valores, contudo somos água e vinho.

Minha paciência com a forma que muitos me tratam acabou e eu estou cansada de várias situações. Talvez você sinta que estou diferente e não reconheça sua amiga em mim, e talvez você esteja certo. Por muitos anos eu tentei desenvolver o desapego. Era um trabalho interno árduo e difícil. Então um dia a vida me abalou e me mostrou que não existia um caminho à ele, um dia você leva um choque e quando acorda ele está lá.

Eu cansei de colocar os problemas dos outros na frente dos meus. Eu cansei de me importar. Trato o próximo exatamente como ele me trata. E isso pode não parecer minha personalidade e sim uma escolha, porém tornou-se quem eu sou. Minha característica de abraçar todos e extender a mão foi retraída pela falta de consideração. Se um dia voltarei a ser quem era é uma dúvida que permanecerá.

É difícil sentir essa mudança. É difícil perceber que me tornei uma pessoa à quem nem eu conheço direito.  Estou tentando lidar comigo mesma quando não sei exatamente quem sou. Estou em fase de descobrimento dessa pessoa que está de saco cheio e procura pelo novo. Estou à procura de sentimentos que não consigo mais ter.

Estou tentando achar partes perdidas do meu coração.

Vinte e oito.

vinte e oito

Hoje é o primeiro aniversário que passo longe de casa. A primeira vez que não acordarei com meus pais gritando e me abraçando ao me acordar. Hoje é também aquele dia do ano que relembro tudo que já passou e penso em como as coisas aconteceram.

Vinte e oito nunca foi uma idade que imaginei ter, assim como nenhuma idade após os 18. E talvez por isso essa seja minha melhor década vivida. Eu me desprendi de planos obcecados e determinei objetivos a longo prazo que gostaria de cumprir. Hoje, sou feliz em dizer que risquei vários desses objetivos da lista e continuo caminhando.

Mas é por ter conseguido tanto que sempre paro para pensar como isso aconteceu. Como eu consegui tudo isso? Eu nasci sabendo que nada viria fácil na minha vida. Eu tive noção do que era ter problemas financeiros muito cedo e mesmo assim eu nunca quis lutar apenas pelo dinheiro. Eu vi e passei por situações enquanto crescia que ninguém deveria passar. Eu soube o que era a tristeza antes de saber ler e escrever. Mas foi também muito cedo que eu descobri o que era o sonhar.

Foi aos 4 anos, no tapete da sala em frente à uma televisão em uma armário de madeira que eu descobri que aquilo me fazia feliz. Que aquilo me transportava do meu caos para os meus sonhos. E eu queria poder fazer isso por outras pessoas também.

Mas como essa menina de Interlagos que contava moedas pra alugar fitas VHS faria isso? Como eu faria faculdade? Como eu faria cinema? Como eu consegui?

Ontem comprei 3 sapatos e lembrei de quando tinha o tênis de ir pra escola e o de sair. E só. Lembrei também que felizmente eu não me importava e vivia feliz assim. Quando abro meu armário e as roupas caem em mim por não caberem mais, lembro de quando tinha 3 mudas de roupa e não me importava. Ainda bem que essa coisa de vaidade só bateu depois dos 20. E ainda bem que após os 20 eu já trabalhava.

Ainda bem que bolsas escolares e financiamento estudantis existem e meu irmão também. Ainda bem que apesar de encher meu saco, ele sempre me ajudou. Ainda bem que eu tenho os melhores pais do mundo.

Ainda bem por aquele dia na estação Pinheiros quando eu decidi que ia tentar a bolsa pro Canadá mesmo que se ganhasse, não conseguisse ir. E que quando a porta do metrô abriu um moço trombou em mim com uma camiseta de Vancouver.

Ainda bem que eu aprendi que sempre vou cair, mas se eu levantar e sorrir as coisas vão melhorar.

E sim: ainda bem que eu não morri no chão daquele banheiro há 10 anos atrás.

Estação Paraíso.

its alaways darkest before the dawn

Perguntam-me como sei, como soube e muitos flashes aparecem na memória. Cheiros, toques, sorrisos, risadas, abraços… e eu sei, apenas sei, eu sinto. É difícil explicar que várias paixões aconteceram, mas o que sinto hoje é amor, é real e é diferente. Talvez, se eu conseguisse descrever o que senti naquele dia no metrô, mas não consigo.

Sempre lindo, intenso, amoroso.

Fazia-me feliz o ver passar, sorrir, rir… resmungar. Fazia-me feliz com “bom dia”, com “tem café novo”, “manda mensagem quando chegar”.

Simples assim. E é por isso que nunca ninguém saberá explicar, apenas sentir. Pode ser ao fechar os olhos em um beijo, ao segurar a mão ou em uma simples mensagem. Um dia acontece e você sente.

Eu sempre terei o metrô para me lembrar das dancinhas na esteira da Consolação ao voltar pra casa e lágrimas desesperadas da Estação Paraíso. Eu sempre o terei no meu coração.

Porque é amor, pra sempre.

Bio.

happy wall

Uma das minhas tarefas nessas últimas semanas de Pós-graduação é escrever minha biografia. Não aquelas notas pequenas que escrevemos para blogues ou sites de relacionamentos, uma biografia de verdade, dizendo quem eu sou. Foi então que longe de casa há 10 meses, suando embaixo de 30 graus canadenses que me peguei sorrindo. Sorriso sincero e orgulhoso, porque apenas eu sei quem sou, onde nasci, o que vivi e como vim parar aqui. Já escrevi algumas vezes que por muito tempo não acreditei que era verdade, mas hoje perto de me formar eu repenso e confirmo: eu consegui. Eu sonhei, eu quis muito e eu consegui.

Fui criada em uma família tradicional que presa pela educação e sucesso profissional acima de tudo. Meus primos fazem parte da alta classe média paulistana com orgulho. Eles são engenheiros, administradores, empreendedores, médicos, dentistas… Eu nasci com um sonho e um futuro pré determinado que colidiram no momento em que precisei contar qual era minha escolha para prestar vestibular. Eles queriam que eu fosse médica, eu queria contar histórias. Sendo assim: “Eu quero contar histórias, vou fazer cinema.” – “Você vai morrer de fome.” –  “Tudo bem.”  Eu sempre fiz escolhas baseada nos meus sentimentos, pois preciso sorrir diariamente, e é isso que está me levando além.

Dez anos após o vestibular, estou escrevendo de Vancouver, onde moro e faço Pós-graduação em roteiro para cinema e televisão. Uma das melhores coisas que já me aconteceram. Depois de discussões, depressão, blackout e momentos de extrema tristeza, minha família percebeu que não importava o que eu queria fazer da vida, eles não deveriam impor, apenas me apoiar. Então entrei na faculdade e me tornei mais uma endividada no mundo. A faculdade terminei em 2010, o pagamento só termina em 2019. É preciso arriscar para os sonhos se tornarem realidade. Mas a faculdade não era um sonho, contar histórias é. Esse foi só o começo do drama. Foi no meu último ano da faculdade que eu abri meu coração para mim mesma e com medo revelei o que queria fazer.

Pós-graduação ou extensão universitária no exterior. Como e com que dinheiro? Sonhando, perseverando e trabalhando. Em 2012 eu ganhei uma bolsa de estudos parcial para a mesma escola que estou hoje. Incrível seria se ela não fosse parcial e eu não tivesse que transferir 13 mil dólares em uma semana além de ter mais 20 mil para viver um ano no Canadá. Disse obrigada, chorei por semanas e acreditei que nunca mais algo assim aconteceria comigo, a oportunidade passou. Comecei a trabalhar com tudo e qualquer função que aparecia em cinema. Algumas vezes o salário era bom, muitas vezes era péssimo, mas não importava, eu estava trabalhando. Fui guardando dinheiro e me inscrevendo em todas as bolsas de estudos e concursos culturais que apareciam. Em 2013 o festival South By South West lançou um concurso com a Vancouver Film School no qual o vencedor do melhor roteiro e cartas de intenção ganharia uma bolsa total para um ano de Pós-graduação em roteiro. Eu tive 3 semanas para enviar toda a papelada, incluindo provas e certificados que ainda não possuia. Eu corri e fiz tudo completamente desacreditada. Porém eu tinha em mim que precisava tentar tudo que aparecesse porque uma hora ia dar certo… e deu.

Trabalhei por um ano para juntar o dinheiro das despesas. Com medo e apavorada por deixar minha casa pela primeira vez, larguei família, amigos e amor. Faria novamente quantas vezes fosse preciso. Choraria e soluçaria todas aquelas horas no aeroporto de novo. Porque quando enxergamos o que nasce dos nossos objetivos e perseverança a vida faz sentido.

Eu sinto saudades todos os dias da minha vida. Eu sofro e choro de saudades diariamente, e isso não vai passar nunca. Porque agora eu deixarei parte do meu coração aqui com amigos incríveis que cruzaram minha vida. Porque parte de mim voltará para o México, Islândia, Baltimore, Nova Scotia, Saskatchewan, Toronto… E eu estou voltando para um dos melhores lugares do mundo, São Paulo.

A vida ainda não “deu certo”, fazer Pós-graduação não garante sucesso à ninguém. Mas reforçou meus sonhos e minhas ambições. Tenho imenso orgulho do meu caminho. Independente do que vier, eu continuarei fazendo por merecer e agradecendo todos os dias. A cada segundo me torno mais-e-mais quem sonhei ser quando criança. E isso é a melhor coisa que alguém pode desejar. =)

À todos os envolvidos nos meus sorrisos e saudades diárias, obrigada. ❤