Carta à Amy.

 

Nas últimas semanas voltei a escutar seu album “Back to black” e me senti tão próxima das suas dores. Entendo cada palavra que canta, cada verso que cortou seu coração. Eu sei que morreu se sentindo sozinha. Eu entendo que nenhum sucesso que alcançou conseguiu preencher seu coração como precisava. Mas sua memória me ajuda um pouco. As vezes em meio ao choro eu lembro que você existiu e da sua dor escreveu os mais áridos e honestos versos.

Porém, diferente de você, não afogo minhas dores existenciais em álcool ou drogas. Seria hipócrita tentar resolver meu vazio com algo que destrói tanto minha família. Não consigo me entorpecer sabendo que machucaria minha mãe. Houve tempos em que comia desesperadamente procurando um segundo de felicidade, mas até esse prazer momentâneo eu perdi. Perdi apetite, vontades e fé. Não enxergo a luz para me guiar, não encontro soluções, não há itens na lista de objetivos que queira muito realizar.

Eu quero paz.

Quero acordar tranquila e trabalhar com o que gosto. Quero dias cheios, quero vontade de me divertir mesmo cansada. Quero aproveitar o sol e sentir a brisa do anoitecer. Quero voltar a dançar na esteira do metrô e sorrir. Quero voltar pra casa e ouvir o silêncio, sentir o cheiro de limpo e abraçar quem amo.

Amor…

Eu também tenho um Blake. Ele chegou do nada e sem saber me salvou de mim. Ele me fez sorrir e feliz como nunca. Ele me tirou do chão e fez dos seus braços meu lugar preferido no mundo. Ele foi meu melhor amigo sem saber, foi meu porto seguro sem querer. Ele me fez. Então partiu sem tentar ser nós.

Meu Blake é minha pessoa preferida no mundo, é a saudade que ainda me arranca sorrisos. Ele é por quem agradeço todos os dias por existir, por ele existir.

Talvez você entenda, mas meu Blake é também a pessoa mais egoísta que já conheci. Tão preocupado consigo, ele magoa sem se preocupar. Porque pra ele, se os olhos não vêm o coração não sente. Pra ele o importante é apenas o aqui e agora. Apenas o que rola ali, naquele arredor. E se ele deixou, está resolvido. Então trata com silêncio as dores que lhe correspondem e julga os que sentem diferente. Meu Blake não tem compaixão, apenas tesão pelo que atravessa sua vida agora. Meu Blake não quer se preocupar com outros, pois acredita que suas angústias serão resolvidas escolhendo o que é fácil.

E minha dor de viver é acentuada por saber que é esse egoísmo que nos impede de conversar e rir juntos. É esse egoísmo que o impede de me contar quando lembra de mim, quando sente saudades, quando sonha com a gente. Porque quando esse egoísmo é momentaneamente esquecido, ele aparece e consegue me contar um pouco da vida, da saudades…. do coração.

Meu Blake tem muitas dúvidas no coração e não sabe escutá-las para resolver. Ele joga tudo de lado e segue tentando construir sentimentos novos achando que se de lado está, vazio está, e o novo irá surgir. O que o meu Blake não sabe é que o coração não esvazia, não esquece. E se lá está, lá fica. Um dia o bloqueio quebra e a saudade volta pra avisar que nada novo significa, pois a chance que ele não quis dar ainda está lá para lembrar do verdadeiro, do único. Meu Blake ainda precisa entender sobre o encontro de almas e não tentar evitá-lo.

Quis te escrever pra contar que suas dores ajudam a amenizar a dos outros. E que talvez você não soubesse disso. Entre wisky e crack a percepção deve ficar meio fora desse mundo. Então obrigada por cada letra, cada queda e cada decepção televisionada.

Nada foi em vão.

Espero que pra mim também não seja.

 

De uma amiga.

.limbo.

Conviver com uma doença crônica que afeta toda a minha vida e ações me fez por vezes desenvolver ótimas técnicas para me ajudar e controlar meus pensamentos. A mais importante é o bloqueio da morte. Durante um longo período eu achei que morrer resolveria tudo, mas quando comecei a enxergar minhas dores como problemas, como uma boa controladora de desastre eu achei soluções. Eu encontrei em listas de sonhos e objetivos todos os motivos que precisava para levantar e andar até o que precisava. E apesar de cair tantas vezes, eu nunca deixei de levantar e andar, levantar e andar…

Eu tinha motivos para me esforçar, tinha objetivos e tanta vontade de viver apesar da morte rodear meus pensamentos. Fui forte e me orgulho de ter conseguido tantas coisas pelas quais já sofri tanto ao visualizá-las tão longe da minha realidade.

Mas nada, absolutamente nada disso pode me ajudar agora. Sem perspectivas, desejos, ou sonhos palpáveis, eu estou mal e sem ferramentas que possam me ajudar.

Eu não quero nada, não tenho vontade de nada. Talvez o que eu mais queira seja dormir pra sempre. Mas quando os pesadelos me acordam eu imagino se até isso não está perdido.

Morrer é uma ideia óbvia pra quem deseja sumir e acabar com as dores, mas e se morrer for apenas um descolamento do material? E se morrer for apenas deixar o corpo, mas as dores acompanharem a alma? Se morrer não é garantia de resolução para toda essa infelicidade, então nem morrer mais eu quero.

E isso resulta em: nenhuma vontade de viver, porém tão pouco de morrer. Isso resulta no pior limbo que alguém pode estar.