Vinte e oito.

vinte e oito

Hoje é o primeiro aniversário que passo longe de casa. A primeira vez que não acordarei com meus pais gritando e me abraçando ao me acordar. Hoje é também aquele dia do ano que relembro tudo que já passou e penso em como as coisas aconteceram.

Vinte e oito nunca foi uma idade que imaginei ter, assim como nenhuma idade após os 18. E talvez por isso essa seja minha melhor década vivida. Eu me desprendi de planos obcecados e determinei objetivos a longo prazo que gostaria de cumprir. Hoje, sou feliz em dizer que risquei vários desses objetivos da lista e continuo caminhando.

Mas é por ter conseguido tanto que sempre paro para pensar como isso aconteceu. Como eu consegui tudo isso? Eu nasci sabendo que nada viria fácil na minha vida. Eu tive noção do que era ter problemas financeiros muito cedo e mesmo assim eu nunca quis lutar apenas pelo dinheiro. Eu vi e passei por situações enquanto crescia que ninguém deveria passar. Eu soube o que era a tristeza antes de saber ler e escrever. Mas foi também muito cedo que eu descobri o que era o sonhar.

Foi aos 4 anos, no tapete da sala em frente à uma televisão em uma armário de madeira que eu descobri que aquilo me fazia feliz. Que aquilo me transportava do meu caos para os meus sonhos. E eu queria poder fazer isso por outras pessoas também.

Mas como essa menina de Interlagos que contava moedas pra alugar fitas VHS faria isso? Como eu faria faculdade? Como eu faria cinema? Como eu consegui?

Ontem comprei 3 sapatos e lembrei de quando tinha o tênis de ir pra escola e o de sair. E só. Lembrei também que felizmente eu não me importava e vivia feliz assim. Quando abro meu armário e as roupas caem em mim por não caberem mais, lembro de quando tinha 3 mudas de roupa e não me importava. Ainda bem que essa coisa de vaidade só bateu depois dos 20. E ainda bem que após os 20 eu já trabalhava.

Ainda bem que bolsas escolares e financiamento estudantis existem e meu irmão também. Ainda bem que apesar de encher meu saco, ele sempre me ajudou. Ainda bem que eu tenho os melhores pais do mundo.

Ainda bem por aquele dia na estação Pinheiros quando eu decidi que ia tentar a bolsa pro Canadá mesmo que se ganhasse, não conseguisse ir. E que quando a porta do metrô abriu um moço trombou em mim com uma camiseta de Vancouver.

Ainda bem que eu aprendi que sempre vou cair, mas se eu levantar e sorrir as coisas vão melhorar.

E sim: ainda bem que eu não morri no chão daquele banheiro há 10 anos atrás.

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