Not again.

we hear it

Sentada em seu ônibus costumeiro, no lugar de quase todos os dias, Clara voltava para casa depois de passar quase o dia inteiro na Pós Graduação. O dia era especial e ela se sentia bem. 21º graus, um pouco de garoa e bastante sol. Não estava quente, não estava frio e a brisa do mar chegava fresca àquele canto da cidade. Às 8PM ainda fazia sol, mas ele já teria se posto até chegar em casa. Respirou feliz no momento em que uma de suas músicas preferidas começou a tocar no Shuffle do ipod, até isso estava a seu favor naquele dia. Feliz por estar bem, ela sorriu. Não tinha angústia, não tinha preocupações, pois a vida estava tranqüila. Uma de suas história tinha sido elogiada em aula e talvez um estágio desejado fosse acontecer. Tinha apenas que conviver com a saudades dos pais e amigos que estavam longe, mas era por uma boa causa. Sua vida estava acontecendo. Resolveu abrir a bolsa e ler mais um capítulo daquele livro bobinho e leve que estava entre os mais vendidos do mundo. Pois histórias leves com finais felizes a faziam bem, e seria só mais um complemento para aquele dia. Não via a hora de chegar em casa e contar a suas amigas sobre o dia incrível, e quem sabe alguém aceitaria pegar o ônibus da noite para sentar alguns minutos na orla. Ansiava também pelo tradicional skype da noite com seus pais, com quem falava duas vezes ao dia, além das milhares de mensagens. Precisava compartilhar sua felicidade com o mundo, pois era um dia bom.

Sentiu uma movimentação no ônibus enquanto lia seu livro ao som de outra música favorita. Essa em especial a lembrava de um grande amor do passado, ao mesmo tempo que a lembrava da dor que esse amor trouxe consigo. Mas tudo bem, era passado, pois hoje o dia era lindo. O sol estava se pondo, mas não conseguia levantar os olhos antes de terminar esse capítulo do livro. Engraçadinho, bem escrito, bem humorado. Talvez um dia ela pudesse escrever algo assim. Então seu capítulo acabou e Clara levantou os olhos para conferir onde estava e quanto tempo faltava para chegar em casa. Era um ônibus de bancos verticais como os metrôs brasileiros, e as pessoas ficam de frente uma para as outras. Existia uma pessoa sentada na sua frente quando ela levantou seus olhos do livro. E em um segundo seu coração paralisou, sua respiração não funcionava, como se todo o ar do mundo tivesse acabado. Nenhum de seus órgãos sensores reagia, mas seu coração tinha voltado, e aparentemente, queria pular de seu corpo e estava saindo pela garganta. Sem reação, tremendo, ela conseguiu apenas sorrir, como nos velhos tempos antes de toda a dor acontecer. Ela reconheceu os olhos, a boca e sorriu como há alguns anos antes.

we heart it

Em alguns minutos seu cérebro voltou a fazer conexões e lembrou o coração da dor, então ainda sorrindo, Clara fechou seu livro, levantou e deu sinal para descer. Sorriu carinhosamente para ele, olhou para frente, saltou do ônibus no meio do caminho. Respirou fundo, fechou os olhos e escutou a porta se fechar. Seu dia estava perfeito, talvez tivesse sido uma miragem, porque lembrou dele pela música, talvez ela tivesse pensado demais que isso poderia acontecer nos meses anteriores . “Passou!”, ela repetiu mentalmente. No meio do ponto de ônibus em pé, como uma louca, ela se virou e foi abrindo os olhos lentamente como quem sai de um transe. Mas ao virar, ele estava lá, com seu sorriso de sempre. O sorriso mais bonito e carinhoso que já conheceu na vida, o mesmo sorriso que já a fez desejar morrer de tanta dor por meses, alguns anos atrás. “Oi Clara.”

“De novo não, isso não pode acontecer Clara”. 

Renee – to write love on her arms.

“Sometimes you feel everything is over, and just can’st take more the pain. But there’s beautiful things in the world, you must open your eyes for it and try to see the light.”

Há alguns anos atrás, em meio mudanças e decisões as quais eu não queria tomar, a angústia me levou para um lugar que não gosto de visitar, mas as vezes ainda passo por lá. Cada pessoa reage de uma forma aos problemas e dores do mundo. Existem os que não aguentam, então procuraram maneiras rápidas de aliviar a dor. Toda manifestação vista pela maioria apenas como rebeldia, pode ser na verdade um grito de socorro dos que não conseguem ser diretos e gritar para o mundo pedindo por ajuda, pois a dor é maior do que podem encarar.

Um dia, nesse período difícil, eu encontrei a organização “Two write love on her arms“, e além de encontrar pessoas compartilhando de problemas similares, encontrei uma filosofia de ajuda pessoal que ao mesmo tempo ajuda aos outros através do compartilhamento de histórias. Dividir seus problemas, escutar os do próximo, e sempre estar ali para aconselhar lembrando que agora pode estar impossível de viver porque a dor não deixa, mas existem muitas coisas boas pelo mundo. É preciso focar nessas coisas e seguir.

TWLOHA tem o apoio de diversas bandas e artistas preocupados com a depressão de jovens. Mas o apoio principal vem de nós, afiliados e simpatizantes que procuramos entender o problemas do próximo, escutar e lembrar de como todos somos importantes. A organização nasceu de um amigo buscando ajuda para sua amiga e pessoas sofrendo com os mesmo problemas que ela. Depressão, vício, auto-mutilação e tentativas suicidas.

Sua amiga, Renee Yohe, terá sua história compartilhada com mais pessoas, pois em 2012 ela chega a tela grande. Renee, interpretada por Kat Dennings, é uma jovem que sonha com contos de fada, mas a vida a rebate com dores e desilusões.

Mais que um filme sobre depressão e dificuldades, Renee é uma história sobre esperança e superação. E mais um meio de ajudar à quem precisa. Você não precisa sofrer calado e pedir ajuda não é vergonhoso. If you need help, just ask for it.

Renee ainda não tem data prevista de estréia no Brasil.

First Breath After Coma

weheartit

{11pm de um dia de semana, você está cansada de praticamente tudo por não estar fazendo nada. Após um bar com amigos, imagina que talvez a dor esteja menor, pois conseguiu parar de chorar e fingir algumas risadas. “Eu vou ficar bem, eu vou ficar bem!”, sua mente repete em uma tentativa falha que em algum momento próximo o mantra funcione. Mas de repente, em uma ação corriqueira de checar mensagens, você é atingida por um raio. Não foi sem querer, não foi descuidado. Foi direto e pesado. Então agora você sente como se fosse morrer a qualquer segundo, pois não consegue respirar e cada poro do seu corpo dói. As lágrimas correm sem intenção, caem sem sua permissão. E o peito fica mais pesado a cada segundo que essa bigorna se instalou nele. O mundo poderia acabar naquele momento. Não… O mundo deveria acabar nesse momento, porque você já se sente morta. Nada vai mudar essa tristeza profunda e imensa decepção humana. Porque nesse momento você morreu, então tudo acabou. Menos o pior sentimento do mundo que continua a esmagar seu peito. Então, continua a chorar, porque não há nada o que fazer. Nada, nem ninguém no mundo irá tirar esse peso de você. Mas seus olhos não aguentam mais chorar, porque não adianta, porque não é justo, porque você não merece a dor. Então dormir o máximo que puder desejando nunca mais acordar, é a única coisa justa que pode fazer por si. Mas os sonhos também podem ser cruéis. Os desejos são a fonte mais usada nos temas projetados em suas pupilas. Seus olhos inchados abrem de hora em hora para despejar mais algumas lágrimas e perceber que a dor continua.

Após algum tempo de coma opcional, a vida te chama e você precisa acordar. Infelizmente, sabe fazer isso por experiências anteriores. Essa vez é bem mais difícil, a dor é muito mais profunda, a decepção é imensa. Mas precisa acordar. As lágrimas não são mais descontroladas, contudo, algumas vezes por dia sua mente falha e te leva a lugares e memórias as quais não deveria revisitar. E elas caem novamente para te lembrar que você não está no controle dessa situação.

Não há opção além de acordar. Não há opção além de esperar pelo tempo. Não há o que fazer com a bigorna. Não há como secar as lágrimas. Só resta respirar profundamente e deixar o tempo passar.}

If you want to be a writer, you have to write!

Você já pensou por que quer ser o que quer ser? Ou, por que você quer fazer o que quer fazer? Durante quase toda a minha vida, não precisei responder essas perguntas, nem para mim, nem para outras pessoas. Mas já me perguntaram o motivo de gostar de fotografia, e me indagaram sobre o fato de eu não querer viver especificamente dela. Talvez ninguém tenha me perguntado por eu ter feito cinema/tv. Quem não gosta de filmes, não é? Mas quem realmente sabe o que aprendemos na faculdade, ou que fazemos nas especializações que escolhemos? É… Não vem ao caso nesse momento.

O fato de ninguém ter feito essas perguntas, me fez realizar que talvez muitas pessoas achem que eu não quero nada, ou que eu sou louca, “ela muda de decisão toda hora”. Mas foi pensando na respostas que daria à quem me perguntasse, cheguei a conclusão que a declaração básica da minha vida é: “Eu sempre soube o que queria fazer. Eu fiz a única coisa que faria”, cada dia tem mais sustentação.

Eu escrevo, eu sempre escrevi. Mas eu quase nunca contei.

Em meio a vergonha e o medo de desaprovação e julgamentos, eu fui deixando minhas linhas de lado e comecei a me convencer que era melhor com as imagens. Porque minhas histórias eram idiotas, porque eu só sabia escrever narração no colégio e a dissertação deixava a desejar, então eu não sabia realmente escrever. Mesmo que a professora me dissesse que queria saber o resto da história e que minha personagem tinha sido muito bem descrita e poderia ir para frente, eu não sabia dissertação. Eu não sabia argumentar sobre a descatralização, então eu não sabia escrever. E isso claramente só aumentava em mim conforme minha vida acadêmica baseava-se em dissertações políticas, geográficas, ambientais… arg. O fato de algumas pessoas lerem meus diários com passagens de cenas que eu sempre imaginei também não ajudou, mas éramos adolescentes, o que sabíamos? Se era drama, se alguém morria ou tinha doença terminal, era trágico demais. Se era romance, se o casal estava apaixonado de verdade e acabava junto, era açucarado demais. Se tinha et’s, acontecimentos paranormais, fantasmas… era retardado demais. Porque eu tinha 15/16 anos e qualquer coisa que fizesse, não era digno de seriedade. Então minhas histórias ficavam cada dia mais escondidas nos meus vários caderninhos, e meus personagens presos entre as linhas.

Mas nós crescemos, a vida muda e a percepção das coisas também. Quando entrei na faculdade, descobri pessoas interessadas em ouvir minhas ideias e inclusive gostando de algumas. Contudo, a vergonha já estava séria, então poucas coisas conseguiam ser reveladas. Foi uma época em que eu tinha certeza que meu destino era contar histórias por imagens, com luz, na fotografia. E continuo contando histórias nas minha fotografias, mas elas são e precisam ser para mim. Não quero registrar algo apenas por registrar e pagar o aluguel. Fotografia precisa ter sua história reconhecida assim como escancaramos os pensamentos em livros e roteiros. Ela precisa ser desvendada, e sem isso, eu não quero.

Então com medo e com vergonha, me propus a contar a histórias dos outros, mas jamais me envolvi o bastante para dividir os mesmos sentimentos dos que escreveram. E o fato de não conseguir extravasar minhas ideias sobre aquilo, por medo de não ser aceita, só chutava meus caderninhos mais para o fundo da gaveta.

Depois de muita demora, eu resolvi que não conseguia mais ter vergonha das minhas histórias e sobre o meu tipo de narração. Alguém iria gostar, outros iriam odiar, mas era minha e eu ia fazer. Tive acompanhamento, aprovação e realização. Graduei-me como roteirista, produtora e diretora de um projeto o qual gosto muito. Terminei a faculdade decidida a nunca mais deixar o medo e a vergonha me empacar. Sobre o que eu quiser escrever, eu escrevo. Porque apenas eu preciso gostar das minhas histórias para poder me aprofundar nelas e criar o seu mundo, em que talvez, alguém mergulhe e descubra que também gosta e se identificar.

Não escolhi escrever do dia para noite. Não escolhi escrever porque vi a Drew Barrymore narrar alguns dos meus filmes preferidos. Não escolhi escrever porque quero ganhar dinheiro. Deixei de ter vergonha e aceitei que escrevo. Porque é assim que conto pro mundo as histórias que passam pela minha cabeça o tempo todo. E assim que eu me sinto feliz.